Mulheres que Construíram o Brasil: as Pioneiras da Arquitetura e da Engenharia Civil
08 março 2026

Publicado em: 8 de março de 2026 | Tempo de leitura: 10 min

Neste artigo: Sete profissionais que romperam barreiras históricas, deixaram obras tombadas como patrimônio nacional e redefiniram o conceito de espaço público, habitação social e urbanismo no Brasil.

A História que o Urbanismo Brasileiro Ainda Deve Contar

Quando se percorre a trajetória da construção civil e da arquitetura brasileira, um dado persiste como ponto cego na narrativa oficial: a contribuição das mulheres que moldaram nossas cidades. Suas contribuições foram sistematicamente subestimadas, quando não, apagadas.

Parques urbanos que hoje recebem milhões de pessoas por ano, museus que transformaram o acesso à cultura, conjuntos habitacionais que revolucionaram a concepção de moradia popular, escolas projetadas como ambientes pedagogicamente ativos. Parte significativa desse legado tem autoria feminina. E parte significativa desse legado ainda não recebe o crédito que merece.

No Dia Internacional da Mulher, este artigo não é uma homenagem simbólica. É um registro técnico e histórico de sete profissionais que, em diferentes épocas e contextos, exerceram engenharia e arquitetura com rigor, inovação e visão estratégica, em um ambiente que insistia em dizer que aquele não era o lugar delas.

As Pioneiras: Trajetórias que Redefiniram o Setor

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Arinda da Cruz Sobral (1883–1981) — A Primeira Arquiteta Diplomada do Brasil

Em 1907, quando a presença feminina em faculdades de engenharia e arquitetura era virtualmente inexistente no país, Arinda da Cruz Sobral ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) do Rio de Janeiro. Formou-se em 1914, sob atenção da imprensa, que registrou seu diploma como acontecimento histórico, tornando-se a primeira mulher graduada em Arquitetura no Brasil.

Mais do que o título, Arinda deixou obra. A Capela São Silvestre, no Parque Nacional da Tijuca, concluída em 1918, é até hoje tombada como patrimônio histórico pelo IPHAN. Sua trajetória não apenas abriu a porta para outras mulheres no setor: ela demonstrou, com projeto entregue e estrutura de pé, que o argumento da exclusão não tinha base técnica, apenas base cultural.

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Enedina Alves Marques (1913–1981) — A Primeira Engenheira Negra do Brasil

Em um país que havia abolido a escravidão há menos de trinta anos, Enedina Alves Marques concluiu em 1945 o curso de Engenharia Civil pela Escola de Engenharia do Paraná, atual Universidade Federal do Paraná (UFPR), tornando-se a primeira mulher negra a se formar engenheira no Brasil.

A dimensão dessa conquista exige contexto: Enedina não enfrentou apenas o preconceito de gênero que já excluía mulheres do ensino técnico superior. Ela atravessou, simultaneamente, as barreiras de raça e de classe em uma instituição e em um setor que não foram projetados para recebê-la em nenhuma dessas dimensões.

Sua carreira profissional foi construída na área de recursos hídricos e energia elétrica no Paraná, campo técnico de alta complexidade, que ela ajudou a estruturar no estado. Atuou em projetos de aproveitamento hidrelétrico que contribuíram para a infraestrutura energética regional em um período de intensa expansão industrial do país.

Enedina morreu em 1981 sem o reconhecimento público que sua trajetória merecia. Nas últimas décadas, sua história passou a ser resgatada por instituições de ensino, entidades de engenharia e movimentos que compreendem que apagar contribuições como a dela não é apenas injustiça histórica, é empobrecimento técnico da memória do setor.

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Carmen Portinho (1903–2001) — Habitação Social como Política Pública

Carmen Portinho não administrou apenas edifícios. Ela concebeu uma política de habitação. Como diretora do Departamento de Habitação Popular do Rio de Janeiro entre 1946 e 1960, Carmen redefiniu o que uma moradia operária deveria ser e por que isso importava para a cidade como um todo.

O empreendimento mais representativo de sua gestão, o Conjunto Residencial Pedregulho, projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy sob sua coordenação e encomenda direta, incorporou lavanderias coletivas e creches integradas ao complexo habitacional. A decisão de incluir esses equipamentos partiu de Carmen: ela compreendia que o programa social era tão determinante quanto o projeto arquitetônico. Em um ambiente em que habitação popular era tratada como questão quantitativa, ela a tratou como questão urbanística e de autonomia. "Habitações para solteiros, que são muito procuradas por mulheres solteiras que trabalham fora", defendia ela publicamente em 1946.

Paralelamente, atuou como engenheira-chefe na construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), obra de alta complexidade técnica que consolidou definitivamente sua autoridade no setor.

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Lota de Macedo Soares (1910–1967) — O Parque do Flamengo e a Batalha pelo Espaço Público

Lota de Macedo Soares nunca obteve diploma formal em arquitetura ou urbanismo. O que ela obteve foi algo mais raro: a capacidade de liderar um dos projetos de revitalização urbana mais ambiciosos da história do Rio de Janeiro e a determinação de garantir que o resultado servisse às pessoas, não ao mercado imobiliário.

Como coordenadora do Grupo de Trabalho responsável pela criação do Parque do Flamengo, Lota travou batalhas sistemáticas contra a especulação imobiliária e contra projetos que ameaçavam privatizar o aterro recém-construído. Sua vitória foi garantir o tombamento da área como patrimônio público, assegurando proteção legal permanente para aproximadamente 1,2 milhão de m², um dos maiores parques urbanos em área contínua da América Latina, segundo dados da Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

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Lina Bo Bardi (1914–1992) — A Arquiteta que Democratizou a Cultura

Nenhum nome na arquitetura brasileira do século XX carrega o peso simbólico e técnico de Lina Bo Bardi. A arquiteta ítalo-brasileira projetou obras que se tornaram referências globais e que permanecem décadas depois, como exemplos de como a forma pode servir à função social.

O MASP é o caso mais emblemático: o vão livre de 74 metros sob a Avenida Paulista não é apenas proeza estrutural é uma declaração de que o espaço público pertence a quem passa por ele. Os cavaletes de vidro que expõem as obras, permitindo que o visitante veja o verso das telas, foram uma ruptura deliberada com o modelo elitista das instituições culturais.

O Sesc Pompeia, projetado a partir da requalificação de uma antiga fábrica, seguiu a mesma lógica: "Preservar a fábrica é preservar um pedaço da história da cidade... sem disfarces." Para Lina, a memória construtiva do lugar era parte de projeto, não obstáculo a ser demolido.

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Rosa Kliass (1932) — Paisagismo como Planejamento Urbano

Rosa Kliass construiu uma carreira baseada em uma premissa que levou décadas para ser amplamente aceita no Brasil: o paisagismo não é decoração é infraestrutura urbana.

Cofundadora da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), Rosa projetou espaços que hoje fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros. A revitalização do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, e o Parque da Juventude — construído sobre a área das antigas instalações do Complexo Carandiru — são dois exemplos de como o desenho da paisagem pode transformar territórios marcados por ausência ou trauma em equipamentos públicos de qualidade.

"A arquitetura é praticamente uma proteção contra a paisagem", disse Rosa sintetizando em uma frase, a relação de tensão produtiva entre o construído e o natural que orienta sua obra.

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Mayumi Watanabe de Souza Lima (1934–1994) — A Escola como Espaço Educador

Mayumi Watanabe não projetou escolas. Ela projetou ambientes de aprendizagem, uma distinção que pode parecer sutil, mas que gerou uma das contribuições mais originais da arquitetura brasileira do século XX.

Atuando no CEDEC (Centro de Estudos e Documentação de Educação) em São Paulo, Mayumi desenvolveu equipamentos modulares em argamassa armada para escolas e creches públicas, concebidos para serem ocupados, modificados e apropriados pelas comunidades. Sua pedagogia do espaço partia de um princípio claro: a criança deveria ser capaz de "ler o espaço de maneira crítica: compreender como aquele espaço foi construído... perceber-se como sujeito no mundo."

Para Mayumi, a qualidade construtiva do ambiente escolar era questão de política educacional, não de estética arquitetônica.

O Que Essas Trajetórias Ensinam ao Setor

Sete profissionais. Décadas diferentes. Contextos de exclusão semelhantes. E um resultado comum: obras que resistiram ao tempo, conceitos que avançaram o setor e cidades que funcionam melhor por causa de suas decisões técnicas e estratégicas.

A construção civil e a engenharia são setores que se sustentam sobre fundações literais e simbólicas. As fundações técnicas que sustentam os padrões de habitação social, de espaço público e de arquitetura cultural no Brasil foram, em parte significativa, colocadas por mulheres que o mercado tentou ignorar.

Reconhecer esse legado não é revisão histórica por obrigação. É parte do compromisso que qualquer organização séria no setor deve ter com a qualidade do debate que alimenta seu próprio desenvolvimento e com a precisão de atribuir mérito a quem o construiu, independentemente de quando ou para quem o mercado estava disposto a reconhecê-lo.

Neste 8 de março, nosso reconhecimento vai a todas as profissionais da engenharia, da arquitetura e da construção civil, às pioneiras que abriram o caminho e às que constroem o futuro hoje.


As informações biográficas e históricas foram compiladas a partir das fontes listadas abaixo. Eventuais correções ou complementações podem ser enviadas para nosso canal de contato editorial.


Perguntas Frequentes

Quem foi a primeira engenheira formada no Brasil?

Edwiges Maria Becker (1896–1989)

Enquanto Arinda abria caminho na arquitetura, Edwiges Maria Becker enfrentava as mesmas resistências na engenharia. Ingressou na Escola Polytechnica em 1914 e colou grau em 1920, tornando-se a primeira Engenheira Civil formada no Brasil.

O que torna sua trajetória ainda mais notável é que, antes mesmo de concluir o curso, Edwiges já atuava como auxiliar de ensino prático em Topografia, posição inédita para uma mulher no ensino técnico da época. Sua carreira profissional foi construída na Inspetoria Federal de Portos, Rios e Canais, onde contribuiu diretamente para a infraestrutura logística do país. Hoje, é patrona da Cadeira 62 da Academia Nacional de Engenharia, reconhecimento institucional que chegou tarde, mas chegou.

Por que é importante reconhecer o legado dessas arquitetas e engenheiras?

Porque a historiografia do setor frequentemente omitiu essas contribuições. Reconhecê-las é tanto um ato de precisão histórica quanto um sinal para as gerações atuais de profissionais de que excelência técnica nunca foi exclusividade de gênero.

Fontes consultadas:

Arquivo do Museu D. João VI (EBA/UFRJ);

Academia Nacional de Engenharia (ANE);

Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (RBEUR);

Acervo Instituto Bardi / Casa de Vidro;

Repositório de Teses e Dissertações da USP;

IPHAN;

Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro / Instituto Pereira Passos;

Acervo MAM Rio.

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